Bez

Introdução

O Bez (também conhecido popularmente como Ojha) é a figura central do xamanismo tântrico e da feitiçaria tradicional no nordeste da Índia, particularmente no lendário vilarejo de Mayong, em Assam. Longe de serem meros curandeiros folclóricos, os Bez são iniciados de alto nível no **Tantrismo Shakta heterodoxo**. Eles atuam como pontes vivas entre o plano físico e as realidades sutis governadas pelas Dasha Mahavidyas. Detentores de linhagens estritamente fechadas e orais, esses feiticeiros dedicam suas vidas à decodificação e aplicação prática de mantras gravados em manuscritos antigos de casca de árvore (*Sanchi Pat*). O Bez domina a alquimia das ervas selvagens, a necromancia ritualística e a habilidade de dobrar a ilusão material (Maya) para executar curas impossíveis, exorcismos violentos e fenômenos de psicocinese que desafiam a ciência racionalista.

Curiosidade: Na tradição de Assam, o poder de um Bez é medido pela pureza e velocidade com que ele manifesta o som em nível Vaikhari (a palavra falada). Um Bez autêntico não precisa de ferramentas complexas: combinando um punhado de cinzas sagradas (*Bhasma*), água do rio Brahmaputra e o disparo mental de um mantra específico, ele é capaz de neutralizar instantaneamente o veneno de uma cobra naja ou paralisar o ataque de um animal selvagem na selva.

Onde se Encontra o Conhecimento dos Bez

Geograficamente, o epicentro de atuação dos Bez está nas florestas densas e vilas ribeirinhas de Mayong e do distrito de Morigaon, em Assam, uma região adjacente ao santuário de Pobitora. Espiritualmente, a sabedoria do Bez está sintonizada com os locais de forte magnetismo telúrico — como encruzilhadas isoladas, raízes de árvores Baobá e figueiras sagradas, e pátios ocultos dedicados à deusa Ugra Tara e Kamakhya. É nesses ambientes liminares que eles coletam ingredientes botânicos sob a luz da lua nova e testam seus limites espirituais.

Curiosidade: Embora muitos Bez operem de forma pacífica como médicos da comunidade local, as linhagens mais antigas realizam seus sadhanas mais profundos na escuridão total dos campos de cremação (*Smashanas*), onde negociam diretamente com entidades astrais e espíritos da natureza (*Bhutas* e *Pretas*) para obter favores e blindagem espiritual para a sua tribo.

Passatempos e Prodígios dos Bez no Contexto Tântrico

Os passatempos dos Bez confundem-se com a própria história mística de Mayong. Seus feitos e práticas diárias revelam a aplicação nua e crua do poder de Shakti sobre os elementos densos do mundo material:

  • O Voo dos Manuscritos e o Teste dos Mantras 📜🦅:
    - Descrição: Em passatempos de disputa de poder entre diferentes linhagens de magos, um Bez desafiava o outro fazendo com que folhas de palmeira contendo feitiços voassem sozinhas pelo ar ou ficassem presas no teto dos templos sem nenhum suporte físico, movidas puramente pelo vento interno do *Prana* projetado através de comandos vocais.
    - Simbolismo: Demonstração de que a matéria inanimada obedece à inteligência vibracional do iogue que se fundiu com a energia sutil do ar (*Vayu Tattva*).
    - Práticas Devocionais: Pujas secretos dedicados à Mahavidya Chhinnamasta para cortar as amarras da gravidade e da percepção lógica comum.
    - Curiosidade: Relatos locais afirmam que manuscritos roubados de um Bez antigo retornavam sozinhos flutuando para a casa de seu dono original.
  • A Extração de Venenos com o Prato de Cobre (Kansa Thala) 🪞🩸:
    - Descrição: Um dos passatempos médicos mais documentados dos Bez envolve a cura de picadas de cobras letais. O Bez joga um prato de metal consagrado nas costas ou na ferida do paciente. O prato gruda como um ímã biológico, suga todo o veneno escuro para fora do corpo e cai sozinho no chão assim que o sangue da vítima está completamente purificado.
    - Simbolismo: Reflete a ação compassiva e violenta da deusa Tara, a salvadora que engole as toxinas do sofrimento do mundo para proteger seus filhos.
    - Práticas Devocionais: Entonação ininterrupta do Tarini Mantra em frequências acústicas específicas sobre recipientes de água purificada.
    - Curiosidade: Pesquisadores e céticos já tentaram cobrir as costas de pacientes com óleo para evitar a aderência do prato, mas o magnetismo gerado pelo mantra do Bez superou qualquer isolante físico.
  • O Aprisionamento de Forças Invasoras no Luki Mantra 🛡️🐅:
    - Descrição: Durante os séculos de invasões muçulmanas e coloniais em Assam, os Bez reais realizavam o passatempo de erguer o Garh (barreiras invisíveis). Ao cravarem estacas de madeira encantadas nas fronteiras de Mayong, eles faziam com que os exércitos invasores ficassem cegos, andassem em círculos ou se transformassem mentalmente em feras selvagens, forçando-os a se devorarem mútua e tragicamente.
    - Simbolismo: Alinhado ao aspecto de Bagalamukhi e Kali, que paralisam a ação agressiva externa e colapsam o carma destrutivo dos opressores sobre eles mesmos.
    - Práticas Devocionais: Sacrifícios simbólicos vegetais (*Bali*) oferecidos às energias protetoras da terra em noites de Amavasya (lua nova).
    - Curiosidade: O medo desses prodígios dos Bez foi o que manteve os grandes impérios imperiais longe do coração de Mayong por gerações.

O Código de Conduta e Transmissão do Bez

A sobrevivência do conhecimento do Bez depende de uma ética tântrica rigorosa, estruturada sob pilares tradicionais:

  • O Segredo Matrilinear e Iniciático: Um Bez nunca revela o significado exato de seus mantras de cura em público. A transmissão ocorre no leito de morte ou em momentos de total isolamento, preferencialmente honrando a intuição feminina e a linhagem familiar direta.
  • A Lei do Retorno Imediato: Se um Bez utilizar seu conhecimento (conhecido como *Mora Mantra*) para prejudicar um inocente por motivos mesquinhos ou ganância financeira, a tradição estipula que o feitiço ricocheteará, destruindo a sanidade mental e os poderes do próprio mago.
  • Simbiose com a Natureza: O Bez não inventa o poder; ele apenas pede permissão às divindades locais que habitam as pedras, rios e árvores de Assam, agindo como um diplomata entre o reino dos homens e o reino dos espíritos.

Conclusão

O Bez é a prova viva de que o xamanismo primitivo e a alta metafísica tântrica do Shaktismo não estão separados, mas sim integrados na vida prática. Através de seus prodígios, do uso destemido dos mantras e do respeito absoluto pelas leis ocultas da Mãe Cósmica, esses magos de Mayong guardam as chaves de um mundo onde a palavra dita com autoridade espiritual quebra qualquer barreira de ferro. Que a coragem e a sabedoria ancestral do Bez nos inspirem a buscar o verdadeiro domínio sobre as ilusões da mente.
Jai Maa Mayong Anandamayi! Ugra Tara Namaha! Om Shakti Namaha!

Ilustração do Feiticeiro Bez de Mayong