Hijra
Introdução
O termo Hijra (em urdu/hindi: ہِجْڑا / हीजड़ा, transliterado como hījṛā) refere-se a uma comunidade tradicional do sul da Ásia (especialmente Índia, Paquistão e Bangladesh) composta por pessoas transgênero, intersexo ou eunucos que adotam papéis de gênero não-binários. Reconhecidas como terceiro gênero em vários países da região, as hijras formam comunidades organizadas com sistema de parentesco próprio (guru-chela) e ocupam um lugar único na cultura, com raízes antigas no hinduísmo e influências do período islâmico mogol.
Significado da Palavra Hijra
A palavra Hijra é de origem urdu/hindi e está associada a identidades de gênero fora do binário masculino-feminino. Não deriva diretamente do sânscrito védico, mas tem paralelos culturais em tradições antigas da Índia. Abaixo estão as formas de escrita da palavra em diferentes idiomas e scripts:
- Urdu: ہِجْڑا (hījṛā)
- Hindi: हीजड़ा (hījṛā)
- Tamil: ஹிஜ்ரா (hijra)
- Bengali: হিজড়া (hijṛa)
Origem e Características
Raízes nos Textos Sagrados e na História
A presença de hijras remonta a milhares de anos na subcontinente indiano, com menções em textos antigos como o Kama Sutra, o Ramayana e o Mahabharata, onde figuras de gênero fluido ou terceiro gênero aparecem. Durante o Império Mogol (séculos XVI–XIX), hijras ocupavam posições de prestígio em cortes reais. Elas são frequentemente associadas à deusa Bahuchara Mata (uma forma da Mãe Divina) e a divindades andróginas como Ardhanarishvara (Shiva-Parvati fundidos). Muitas hijras realizam rituais de castração (nirvan) como oferenda espiritual.
O Papel das Hijras
Símbolo de Bênçãos e Marginalidade
As hijras tradicionalmente realizam o badhai: bênçãos em casamentos, nascimentos e cerimônias, cantando e dançando em troca de oferendas. Acreditava-se que possuíam poderes de abençoar ou amaldiçoar, conferindo-lhes um status ambíguo de reverência e medo. No entanto, a colonização britânica (século XIX) criminalizou a comunidade, levando a estigma e exclusão que persistem até hoje. Muitas enfrentam discriminação, pobreza e violência, apesar do reconhecimento legal como terceiro gênero na Índia (2014), Paquistão e Bangladesh.
Hijras na Cultura e nos Textos Sagrados
Na cultura indiana, as hijras participam de rituais hindus e, em alguns casos, incorporam elementos islâmicos (muitas hijras são muçulmanas ou praticam sincretismo). Textos como os Puranas e narrativas populares mencionam figuras de gênero não-binário. Hoje, a comunidade mantém tradições como o sistema guru-chela (mentora-discípula), festivais e gharanas (linhagens familiares rituais), mas muitas hijras também lutam por direitos, educação e inclusão social em contextos modernos.
Simbolismo e Significado
As hijras simbolizam a transcendência do binário de gênero, a fluidez espiritual e a conexão com o divino andrógino. Representam renúncia, devoção e poder transformador, mas também revelam as tensões entre reverência cultural e exclusão social. Sua existência desafia normas rígidas e ensina sobre diversidade, resiliência e a busca por aceitação em uma sociedade complexa.